domingo, 16 de maio de 2010

Doma Racional-Monty Roberts




"Finalmente o Brasil pôde ver uma demonstração de Monty Roberts, o encantador de cavalos.

O cowboy americano, que através de seu método já iniciou mais de 20 mil cavalos, que já vendeu mais de seis milhões livros mundo afora, se comoveu e fez muita gente chorar na sua passagem por Brasília, duas semanas atrás.

Para um caubói que dá lições de gentileza, a recepção é de cortesia e cavalheirismo. Na entrada do recinto onde iria passar quatro dias, Monty Roberts ganha escolta montada. Ele retribui com respeito cívico a saudação.

Ele é daqueles que não têm medo de se repetir. Está sempre com o mesmo traje: camisa azul e chapelão de faroeste. E sempre diz a mesma frase: “A violência não é a resposta.”

Na agenda apertada de Monty Roberts no Brasil, o Globo Rural conseguiu um espaço para apresentar algo que ele nunca viu: a reportagem feita na fazenda dele em 2004.

Previamente, nós já tínhamos colocado uma narração em inglês para que ele pudesse compreender a reportagem. A fazenda dele fica no oeste americano, entre Los Angeles e San Francisco. Logo no começo da história Monty tem uma reação de riso e de espanto. A barriga sumiu. Monty conta que de cinco anos para cá perdeu 38 quilos. Quando faço cara de que não acredito, ele mostra o cinto.

“Quando você foi lá eu prendia no furo da ponta. Agora, afivelo embaixo. Perdi 20 centímetros de barriga. Precisa de muita força de vontade. Eu como a mesma sopa de vegetais com frango três vezes ao dia. Mas, em compensação, eu posso beber o que eu quiser e o quanto eu quiser, desde que seja água”, contou Roberts.
Da reportagem que fizemos, vai atualizando. O Papi Neek, aquele cavalo que só faltava falar, foi vendido para um criador do Texas e já ganhou vários campeonatos de rédea. Aquele vizinho excêntrico, onde filmamos uma manada espetacular de mustangues selvagens, foi preso pelo FBI e perdeu todo o plantel.

Ele diz se lembrar com saudade da pequena Rosie, a potrinha mustangue que lhe deu uma canseira história bem diante de nossa câmera. Mas, depois, aceitou docilmente o gesto que virou sua marca registrada: o cafuné na cabeça e, como que por mágica, o seguiu ligada exclusivamente pelo invisível fio da confiança mútua.

“Sabe que, depois disso, a Rosie ganhou prêmios na categoria mustangue e acabou sendo vendida também”, comentou Roberts.

Chamou a atenção de Monty Roberts a parte da reportagem sobre os brasileiros que treinam cavalos sem violência. Depois do vídeo, inclusive, conversa com Paulo Roberto Ribeiro e Eduardo Moreira, seguidores dele, e se diz feliz em saber que pelo Brasil a amansação bruta vem sendo gradativamente substituída pela doma gentil. “Admirável! Pelo jeito vocês estão fazendo um bom trabalho aqui”, contemplou.

Mas, não é com os profissionais do cavalo, com os domadores o primeiro compromisso de Monty Roberts na Granja do Torto. No picadeiro, ele acompanha os pacientes que freqüentam as sessões da Ande, Associação Nacional de Equoterapia.

A Ande é pioneira no uso do cavalo para tratamento de pessoas portadoras de deficiências e necessidades especiais. O trabalho da instituição já inspirou a criação de mais de 300 centros de equoterapia pelo Brasil afora.
Os pacientes da entidade são chamados de praticantes e apresentam diversos tipos de lesões físicas e psicomotoras.

Abanar as mãos, como Monty Roberts fez para o Thiago Sandoval, significa aplaudir. Bater palmas de verdade não pode para o cavalo não se assustar. Com rédeas adaptadas, pois não consegue prender nada com as mãos, sofrendo de movimentos involuntários constantes, conseqüência de paralisia cerebral, com sérias dificuldades de coordenação para andar e até para falar Thiago vem alcançando progressos notáveis com o cavalo.
Thiago tem 27 anos e começou a equoterapia em 1993. Como a inteligência em casos como o dele é preservada, com os avanços de equilíbrio e coordenação conseguiu já entrar na faculdade de teologia. “Eu acredito em Deus, que é a base de tudo”, falou.
“É mesmo uma benção de Deus essa parceria que podemos fazer com o cavalo para ajudar na cura das pessoas”, completou Roberts.

Monty Roberts diz que, mais do que um entusiasta, tem como missão de vida estimular essa prática em todos os países que visita. Já levantou doações de milhões de dólares para a equoterapia na Inglaterra, Alemanha, Japão e Austrália.

É com pesar que ouve do presidente da Ande, coronel Lélio Cirillo, que o atendimento na instituição está bem abaixo da demanda. Precisariam cobrir outra pista, pois para cada criança que recebem há duas na fila de espera. E é assim pelo Brasil todo.

É com a voz embargada que Monty Roberts fala aos cuidadores. Desculpa-se por se emocionar. Limpa as lágrimas e explica que sempre que vê crianças deficientes, lembra que ele poderia ter sido uma delas. Por muito pouco não teve que passar a vida lutando com incapacidades físicas e mentais.

Na primeira reportagem que fizemos com ele, contamos a história de como o pai de Monty Roberts espancava o filho com corrente. O pai era domador à moda antiga. Amarrava, batia, torturava os animais e corrigia o filho na surra.

“As surras me deixaram 72 fraturas. Se meu pai tivesse exagerado um pouco mais, eu poderia ter ficado inválido. E eu me curava era no lombo dos cavalos com quem eu fugia para parar de sofrer. Eu posso ter sido um dos primeiros praticantes da equoterapia”, lembra Roberts.

Um dos casos que cativaram Monty Roberts foi o do Gabriel Kowalski, que vai fazer cinco anos. A história dessa criança é um exemplo de como tem vontade no mundo e como gente de coração grande. Gabriel nasceu prematuro, de sete meses, teve paralisia cerebral, meningite, perdeu a audição nos dois ouvidos, não tinha coordenação motora para andar, para falar, para se sustentar. Mesmo com todos esses problemas, foi adotado pelo casal Sérgio e Clarissa Kowalski.

Sérgio é médico do Exército. Quando servia num hospital militar de Natal, no Rio Grande do Norte, ficou sabendo do Gabriel que, acreditem, por causa de maus tratos tinha sido tirado dos pais e levado para um abrigo.

Ele usa uma faixa na cabeça para segurar o aparelho que o ajuda a ouvir um pouco. Aquilo que em outras casas poderia ter sido um tormento é motivo de encanto para essa família.

A irmã Marina, que estuda Comunicação na UnB, fez até um vídeo do último aniversário do Gabriel usando como fundo uma música que ele parece gostar: Redescobrir, de Gonzaguinha. É a mesma que o pai toca ao piano e ele vai lá ajudar pondo o pezinho no pedal.

Ele parece adorar quando ouve o outro instrumento que o pai toca: o clarinete."

Nenhum comentário:

Postar um comentário